[Resenha] "A Biografia Íntima de Leopoldina", de Marsilio Cassoti



O escritor argentino Marsilio Cassoti conta a história da Arquiduquesa Leopoldina de Habsburgo, desde sua infância feliz em Viena, onde nasceu em 1797, até sua morte prematura, aos 29 anos, na cidade do Rio de Janeiro. Para escrever sobre o período em que Leopoldina viveu no Brasil casada com Dom Pedro (1817 a 1826), o escritor baseou-se no que relatam as cartas que ela escreveu a parentes e amigos neste período. Assim, ficamos conhecendo a verdadeira história de uma das mulheres mais importantes da nossa história, pois “abraçou o Brasil como seu país, os brasileiros como o seu povo e a Independência como a sua causa”. Nada a ver, portanto, com a mulher frágil,  passiva e sem qualquer vontade política, como foi retratada algumas vezes.

Ao chegar ao Brasil, em 1817, Maria Leopoldina Josefa Carolina Francisca Fernanda Beatriz da Áustria já havia se casado com D. Pedro por procuração, em maio do mesmo ano, em Viena. O enlace de viés político foi feito entre seu pai, o imperador da Áustria Francisco I, e o rei de Portugal, D. João VI — que estava com a Corte no Brasil desde 1808. "Uma vez que a vontade de meu pai é o princípio que orienta meu comportamento, estou convencida de que o céu vai me proteger e permitir que encontre minha felicidade nesta união", escreveu em carta a uma tia.

Leopoldina e Pedro eram muito diferentes. Ao lado do marido, a princesa real do Brasil podia ser considerada uma mulher muito culta, afinal, além de ser dotada de grande curiosidade intelectual  e uma memória prodigiosa, era filha de um dos soberanos mais importantes e poderosos da Terra. Já Dom Pedro teve sua educação interrompida bruscamente por causa da viagem da Família Real para o Brasil. Por reconhecer que Leopoldina tinha uma formação muito mais política do que a dele, Pedro solicitava seu aconselhamento, principalmente depois que o rei D. João voltou para Portugal e ele ficou aqui no seu lugar como regente.

O que mais impressiona em Leopoldina é a sua dedicação ao casamento, aos filhos e ao Brasil. Mesmo insatisfeita e decepcionada com as aventuras amorosas do marido, ela foi impecável, muito correta, dedicada e fiel a ele o tempo todo. Em nove anos de casamento, ela teve nove filhos, sendo dois abortos, porque  D. Pedro precisava muito de um herdeiro homem para consolidar sua posição no trono imperial brasileiro. Leopoldina escreveu: "Estou bastante melancólica, pois me encontro sem amigo a quem outorgar minha confiança. Todos os meus deveres me unem a meu esposo, mas, infelizmente, não lhe posso dar minha confiança. [...] não tenho outro refúgio senão o cumprimento estrito de minhas obrigações [...]".

Na mesma viagem a São Paulo em que proclamou a independência do Brasil (1822), Dom Pedro conheceu Domitila de Castro, que virou uma espécie de "amante oficial", ganhando residência no Rio de Janeiro, o título de Marquesa de Santos e muita influência na corte, opinando, inclusive, sobre assuntos políticos. Para Leopoldina, foi o início de um período de humilhações públicas. A deterioração do seu estado emocional era evidente. Ela buscava conforto unicamente na religião, na leitura e na educação dos filhos.

Em 1825, a Imperatriz deu à luz um menino, Pedro de Alcântara, que viria a ser o segundo Imperador do Brasil. Em 1826, ela engravidou novamente. Triste e desgostosa por conta das constantes traições e o distanciamento de Dom Pedro, Leopoldina caiu doente. Por estar fraca e não concordar em participar de um evento onde Domitila também estaria presente, teve uma discussão muito séria com o marido. Essa discussão fez com que abortasse. O aborto causou uma septicemia, que terminou com sua vida.

Sobre o livro preciso dizer que o estilo de escrita de Marsilio Cassoti é agradável e a leitura flui. É interessante notar que a Leopoldina que começa a mostrar-se no Brasil, depois de perceber que o marido lhe é infiel, é completamente diferente da Leopoldina caprichosa, impulsiva e romântica de quando estava na Áustria. Mas, tenho uma discordância em relação ao subtítulo "A Imperatriz que Conseguiu a Independência do Brasil". Na verdade, a Imperatriz ajudou a conseguir, uma vez que apoiou a independência. O movimento foi uma jogada política bem inteligente. Era esperado que Leopoldina e Pedro agissem politicamente a favor da monarquia. Preservar os governos dos reis, era, inclusive, a função dos casamentos arranjados daquela época, como foi o deles. Com certeza, as monarquias europeias não gostariam que acontecesse no Brasil o que tinha acontecido nos Estados Unidos e estava acontecendo nas colônias espanholas, que após as respectivas independências, tornaram-se repúblicas. Assim, ao incentivar que a independência fosse proclamada por seu marido, Leopoldina cumpriu o papel que se esperava dela, pois após o movimento o Brasil virou Império e D. Pedro foi aclamado o primeiro imperador com o título de D. Pedro I, ou seja, estava garantida a continuidade do poder dos reis na América.

Recomendo muito o livro, principalmente a quem gosta de História.

Título: A Biografia Íntima de Leopoldina - A Imperatriz que Conseguiu a Independência do Brasil
Título original: Amor y Poder en los Tiempos del Imperio
Autor: Marsilio Cassoti
Tradução: Sandra Martha Dolinsky
Páginas: 378
Formato: eBook Kindle
Ano de lançamento no Brasil: 2015
Editora: Planeta
Categoria: Biografia, História

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